Os impactos da guerra no mercado de seguros

Conflitos causam efeitos na confiança global, atingindo cadeias produtivas e o comércio internacional. Assim como na economia, o mercado de seguros também responde aos cenários de instabilidade.

O Brasil ocupa uma posição de destaque no cenário global da aviação executiva. Com uma das maiores frotas de helicópteros do mundo, o país atrai atenção de operadores, investidores e seguradoras que buscam entender os riscos e oportunidades de um segmento em franca expansão. Para navegar esse universo com segurança, é indispensável compreender os riscos envolvidos desde a fase de construção de novos empreendimentos aeroportuários até as complexidades operacionais do dia a dia.

A seguir, exploramos os principais temas que permeiam o setor: os desafios do seguro aeronáutico, as lacunas de cobertura mais comuns, as tendências de mercado e os conselhos práticos para quem está estruturando uma nova base de operações.

1. Riscos na Fase de Construção e Implantação

O perfil do mercado: helicópteros como protagonistas

No cotidiano da análise de riscos em aviação executiva, os helicópteros dominam a pauta. Isso se explica pelo tamanho da frota brasileira, considerada uma das maiores do mundo e pelo fato de que as frotas de táxi aéreo são compostas majoritariamente por aeronaves de asa rotativa. Hangares, jatos e infraestrutura aeroportuária também compõem o universo de análise, mas é o segmento de helicópteros que concentra o maior volume de operações e, consequentemente, de exposição a riscos.

Os primeiros riscos de um novo empreendimento

Quando um novo aeroporto executivo ou hangar de grande porte é anunciado, dois riscos se destacam imediatamente: os danos a aeronaves já presentes no local e os eventos da natureza. A proximidade entre a obra e as aeronaves em operação cria um ambiente de risco elevado, exigindo atenção redobrada tanto dos construtores quanto dos gestores de risco.

Seguro de obra aeroportuária versus obra civil convencional

A principal diferença entre um seguro de obra em ambiente aeroportuário e uma obra civil convencional está, justamente, na convivência entre a construção e a operação aeronáutica simultânea. A presença de aeronaves e pessoal no solo representa uma variável de risco que não existe em obras convencionais.

Em termos de coberturas, o entendimento técnico é claro: os danos à obra em si são cobertos pelo seguro de engenharia, independentemente do ambiente aeroportuário. Já as coberturas aeronáuticas, como casco e responsabilidade civil permanecem as mesmas, com ou sem obra em andamento. Uma cobertura não substitui a outra; ambas são inegociáveis para uma operação bem protegida.

Um ponto importante: na fase de obras, a apólice aeronáutica não deve ser acionada para cobrir danos relacionados à construção. Cada cobertura tem seu escopo bem definido, e confundi-las pode gerar surpresas desagradáveis no momento do sinistro.

2. Riscos Operacionais Após a Inauguração
Gaps de cobertura: o desafio das apólices primárias

Com o empreendimento em operação, o perfil de risco muda completamente. Um dos maiores desafios encontrados na análise de operações de aviação executiva é a existência de lacunas de cobertura entre as apólices primárias não aeronáuticas. Nesses casos, a contratação de resseguro pode ser o caminho para provisionar proteção adicional e preencher essas brechas.

Responsabilidade civil em ambientes complexos

A questão da responsabilidade civil em ambientes com alto fluxo de aeronaves e tripulações terceirizadas é, reconhecidamente, complexa. Em um mesmo ambiente aeroportuário, podem operar simultaneamente: o próprio aeroporto, hangares, operadores aeroportuários, helicópteros, jatos e outros. Cada um com suas responsabilidades e exposições específicas.

A abordagem mais eficaz começa pelo entendimento profundo da operação de cada cliente. Conhecer o tipo de operação, os riscos envolvidos e os limites necessários é o ponto de partida para apresentar um produto de seguro que realmente proteja o operador na ocorrência de sinistros.

“O diferencial está em oferecer o melhor serviço, principalmente na ocorrência de sinistros.”

Concentração de risco em hangares de alto valor

Hangares com capacidade para dezenas de aeronaves de alto valor representam um risco de concentração que merece atenção especial. A análise é feita com base na exposição ao Valor Máximo das aeronaves hangaradas simultaneamente e situações em que o valor segurado está abaixo do real não são raras.

Um caso ilustrativo: através de um questionário de risco atualizado aplicado a um cliente, identificou-se que o Valor Máximo das aeronaves hangaradas havia superado o limite da apólice vigente. A situação foi apresentada ao segurado, que optou pela contratação de um limite maior evitando, assim, uma potencial subcobertura em caso de sinistro. Essa postura proativa faz toda a diferença na gestão de riscos.

3. Mercado e Tendências

Um mercado restrito, mas em evolução

O mercado segurador para aviação executiva no Brasil ainda é concentrado: apenas algumas seguradoras e resseguradoras aceitam esse tipo de risco. As exigências são crescentes e passam, principalmente, pela análise da sinistralidade do operador e pela experiência dos pilotos envolvidos. Quanto maior o histórico de sinistros ou menor a qualificação das tripulações, maior a dificuldade e o custo de obter cobertura adequada.

Operadores mais preparados, mas com desafios pela frente

Comparando com o cenário de cinco anos atrás, os operadores de aviação executiva demonstram maior maturidade na gestão de riscos. A tecnologia tem sido uma aliada importante nesse processo. Um exemplo notável é o sistema Safety Autoland da Garmin, disponível em aeronaves como o Pilatus PC-12 Pro: em caso de incapacitação do piloto, a aeronave é capaz de identificar a pista mais adequada e realizar um pouso de emergência totalmente autônomo e seguro.

No entanto, a escassez de pilotos experientes ainda representa um desafio significativo para o setor. A formação de tripulações qualificadas não acompanha o ritmo de crescimento da frota, o que pode pressionar os índices de sinistralidade e as condições de aceitação de risco pelas seguradoras.

Tecnologia como aliada da segurança

O avanço tecnológico nas aeronaves executivas modernas vai além do conforto e da eficiência. Sistemas de automação e segurança ativa estão reduzindo a exposição a riscos decorrentes de falha humana, um dos principais fatores de acidente na aviação geral. Para os gestores de risco e seguradoras, a adoção dessas tecnologias é um diferencial positivo na análise de risco e pode influenciar diretamente as condições de cobertura.

4. Como Estruturar um Programa de Seguros para uma Nova Base

Para uma empresa prestes a inaugurar uma nova base de operações de aviação executiva sem um programa de seguros estruturado, o caminho mais seguro começa com a contratação de um corretor especializado e experiente no setor aeronáutico. Não se trata de uma escolha qualquer: o corretor precisa ser capaz de:

  • Identificar todos os riscos envolvidos na operação específica do cliente;
  • Mapear as exposições e responsabilidades às quais o operador estará sujeito;
  • Apresentar soluções de cobertura adequadas e proporcionais a cada exposição;
  • Garantir que não existam gaps de cobertura que possam comprometer a proteção no momento de um sinistro.

A aviação executiva é um ambiente de riscos complexos e interconectados. Um programa de seguros bem estruturado não é um custo, é a garantia de que a operação poderá continuar mesmo diante de eventos adversos.

A expansão da infraestrutura de aviação executiva no Brasil é uma oportunidade de negócio relevante, mas que exige maturidade na gestão de riscos. Da fase de construção à operação plena, cada etapa apresenta exposições específicas que demandam coberturas adequadas e uma visão estratégica de proteção.

O crescimento da frota, a evolução tecnológica das aeronaves e a maior consciência dos operadores sobre a importância do seguro são sinais positivos. Os desafios  como a escassez de pilotos experientes e a concentração do mercado segurador  pedem atenção. Nesse cenário, contar com profissionais especializados faz toda a diferença entre operar com segurança e enfrentar uma exposição que poderia ter sido evitada.

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